Um ódio que se transformou em amor
- Maria Inês Félix

- 25 de abr. de 2021
- 2 min de leitura
Atualizado: 24 de fev. de 2024
Quando escrevo as minhas histórias para vocês parece que estou apaixonada pela escrita, não é? Só que a verdade é que nem sempre foi assim.
Tudo começou por um ódio, em que só queria distância, até que num dia este sentimento se transformou em amor.
A Maria é a minha dislexia e por essa razão é que só via a escrita como um inimigo, tudo o que sentia por ela era ódio.
Nasci com dislexia fono-linguística e isso significa que tenho dificuldade em associar os sons às respectivas letras e sucessivamente às sílabas que compõem as palavras. De facto, a minha mãe contou-me que eu não era capaz de associar simples sons de letras como por exemplo “b” e “d” ou sílabas como “ba" e "da" ou "ve" e “fe".
Dentro da minha cabeça não havia distinção entre os sons, pois o meu cérebro não era capaz de processá-los (agora entendo porque é que a minha família e amigos diziam que às vezes parecia surda 😂).
Para além da parte fonética, a minha dislexia também afecta toda a parte linguística desde construção de frases, conjugação de verbos, dificuldade de expressão, desenvolvimento de composições e por fim, organização de ideias (significa que às vezes posso repetir a mesma ideia no início e no fim de uma composição).
Agora que já sabem mais um pouco de como a cabeça da Maria funciona.
As perguntas que devem surgir são: Como é que este ódio se converteu? E como é que eu sou capaz de escrever estas histórias?
Acreditem ou não, eu ultrapassei a minha dislexia exprimindo os meus sentimentos através da escrita. Quando sentia vontade de desabafar pegava num pedaço de papel e simplesmente escrevia tudo o que vinha. Mesmo se os outros não percebessem o que estava escrito eu continuava a fazê-lo, pois a Maria e eu entendíamos tudo. Frases e palavras podiam estar incorrectas, mas eu sabia que o mais importante era continuar a escrever sem parar. Ao longo do meu percurso, sempre me disseram que a melhor forma de ajudar a mim mesma era escrever tudo aquilo que surgisse dentro da minha cabeça... e assim foi. A minha relação com a escrita foi crescendo até que o ódio se converteu em amor e em pouco tempo, a escrita tornou-se no "local de encontro" para as minhas emoções.
Apercebi-me que fui capaz de mudar a minha fraqueza em força e por isso é que hoje digo: o meu "maior inimigo" transformou-se no meu "maior amor”! É através da escrita que eu não só me sinto livre e feliz, como também sei que é a forma mais eficaz de ajudar a Maria a libertar-se, comunicar-se e ao mesmo tempo inspirar o mundo.
Por essa razão é que hoje abro os braços e digo:
- Obrigada Maria! Mesmo quando às vezes implico contigo e digo que não gosto de ti, estou muito feliz por te ter transformado em algo tão bonito de se ver. Ao mesmo tempo que te amo, também fazes-me sofrer porque continuas a ser o meu calcanhar de Aquiles.





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